O crescimento rápido do Banco Master, impulsionado pela oferta de CDBs com rentabilidade acima da média de mercado, revelou uma rede de influência que uniu o ex-controlador Daniel Vorcaro a diversas instâncias decisórias do governo brasileiro. A partir das investigações da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, e da posterior liquidação da instituição pelo Banco Central, ficou evidente que decisões tomadas em diferentes esferas ajudaram a sustentar a trajetória do banco ao longo dos anos. Analistas apontam que o caso ganhou dimensão política, econômico e institucional, alimentando uma leitura de que houve esforço para conter a apuração e evitar que revelações sobre as relações entre Vorcaro e autoridades chegassem ao conhecimento público.
A mais recente movimentação ocorreu na manhã da quinta-feira, 15, quando Lula da Silva reuniu no Planalto integrantes da equipe econômica, autoridades do Judiciário e representantes de órgãos de investigação. Horas antes, o BC havia decretado a liquidação da CBSF DTVM (antiga Reag), investigada na operação Carbono Oculto, que apura indícios de lavagem de dinheiro em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo autoridades, a gestora mantém vínculos com investigações relacionadas ao Master, em um esquema que envolve fraudes estimadas entre R$ 11,5 bilhões e, conforme outros levantamentos, próximo de R$ 12 bilhões. O encontro contou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad; o presidente do BC, Gabriel Galípolo; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues; o ministro do STF Alexandre de Moraes; e o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas. A reunião, apresentada oficialmente como uma resposta “de Estado” ao crime organizado, durou cerca de duas horas. Contudo, fontes ligadas ao tema veem nela uma mobilização para gerenciar os desdobramentos do caso Master.
Na semana seguinte, o novo ministro da Justiça, Wellington Lima Silva, confirmou, em entrevista coletiva de posse, que o episódio estaria no centro da agenda pública. Em tom de defesa da atuação estatal, Lula afirmou que o objetivo é demonstrar que o Estado brasileiro vai derrotar o crime organizado. “Depois da situação do Banco Central com o Banco Master, vamos mostrar que o Estado brasileiro vai derrotar o crime organizado”, declarou.
Rede de influência que atravessou o aparato público
A narrativa em Brasília é de que Vorcaro construiu, desde 2019, uma rede de contatos e influência que o levou a atuar com regularidade junto a caixas de decisão. Em 2023, a apresentação de Vorcaro em eventos de alto padrão reforçou a percepção de que o empresário tinha trânsito em círculos político-empresariais de peso. Em 2024, ele foi apresentado ao presidente Lula por Guido Mantega, o que teria aberto portas para circulações mais intensas em Brasília. Além disso, registros de bastidores indicam encontros com autoridades do Executivo e do Legislativo, muitos promovidos por redes como a Esfera Brasil, que agrega lideranças nacionais e internacionais.
A atuação pública de Vorcaro ganhou contornos ainda mais evidentes com a proximidade dele de figuras políticas, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda. Há relatos de que, em 2025, esses contatos teriam atuado como ponte para negociações envolvendo a possibilidade de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), negociação que foi rejeitada pelo BC, por seu elevado risco. A malha de relações alcançaria também o governo do Distrito Federal, com Ibaneis Rocha, e parlamentares influentes no Congresso, como Hugo Motta (presidente da Câmara) e Arthur Lira (então líder do Centrão). Em avaliações de mercado, essa rede seria fundamental para a expansão do banco, mesmo diante de sinais de alerta regulatório.
Legislação, judiciário e controvérsias
No âmbito legislativo, observam-se sinais de alinhamento entre propostas públicas e o modelo de negócios do Master. Em 2024, o PL 4395/2024, apresentado pelo então deputado Filipe Barros, sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de 250 mil reais para 1 milhão por CPF ou CNPJ. Embora não tenha sido aprovado, a proposta ampliou a percepção de influência de Vorcaro sobre o Legislativo, com defensores da liberação maior de garantias para captação no varejo. Juristas destacam que a atuação de grupos de interesse, por si só, não é ilegal, desde que não haja troca indevida de favores que comprometa políticas públicas.
No Judiciário, o BC teve disputas regulatórias que chegaram ao STF, com decisões monocráticas de ministros que impediram, em alguns momentos, intervenções mais abruptas na atuação de instituições de divulgação de crédito. Entre 2022 e 2024, decisões de Alexandre de Moraes favoreceram a continuidade das operações de bancos médios em ascensão, sob o argumento de preservar o devido processo legal. A atuação de Dias Toffoli, que assumiu uma linha mais intervencionista em questões de fiscalização, acabou sendo alvo de críticas, sobretudo após ações envolvendo o caso Master. Acusações de possível conflito de interesses e pedidos de afastamento foram apresentados por parte de setores da sociedade e de parlamentares da oposição.
Novos desdobramentos no STF
Em dezembro de 2025, Toffoli retomou o caso Vorcaro no STF, adotando medidas de sigilo para a tramitação e deslocando parte do acervo de provas para o Supremo. O episódio incluiu acareações entre investigados e autoridades de fiscalização, bem como apreensão de equipamentos pela PF. A iniciativa, criticada por associados ao Ministério Público e por entidades de defesa da transparência, gerou pedidos de impeachment que foram apresentados por alguns senadores. A transparência internacional chamou a atenção para a necessidade de afastamento de Toffoli do inquérito, alegando histórico que colocaria em risco a percepção de imparcialidade.
A PF reiterou a necessidade de prosseguir com a análise de uma possível campanha coordenada nas redes sociais para descredibilizar o Banco Central e pressionar pela reversão da liquidação do Master. A investigação envolve ao menos 46 perfis, supostamente acionados para difamar autoridades e buscar influenciar a decisão regulatória. Vorcaro nega as acusações. A Procuradoria-Geral da República deverá decidir se abre um inquérito específico sobre essa linha de apuração. A decisão de Toffoli, que terá de lidar com a pressão pública e institucional, será decisiva para o andamento do caso no STF.
O cenário atual sustenta a leitura de que o caso Master não se restringe a questões financeiras, mas envolve uma complexa teia de relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Enquanto as apurações avançam, o país acompanha a tensão entre a independência institucional e a necessidade de responsabilização em um episódio que abalou a confiança no sistema financeiro.



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