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Figura de negócios com vínculos no setor público no Nordeste

Figura de negócios com vínculos no setor público no Nordeste

A Polícia Federal deflagrou, nesta sexta-feira, a primeira fase da Operação Compliance Zero, com a prisão preventiva de Augusto Ferreira Lima, 46 anos, baiano e ex-sócio do Banco Master. A ação mira um esquema bilionário de emissão e negociação de títulos de crédito supostamente fraudulentos que envolveria o próprio Master e outras instituições financeiras. As irregularidades teriam vindo à tona após o anúncio da aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). A estimativa inicial de fraude é de aproximadamente R$ 12,2 bilhões, podendo ser ainda maior, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, descreveu o caso como o maior escândalo financeiro do país.

Lima figura como um dos principais alvos da investigação por seu papel como executivo do banco. O empresário foi um dos responsáveis por introduzir no Master um dos seus principais produtos: o cartão de crédito consignado Credcesta, que se tornou um pilar da estratégia da instituição. Antes de ser preso, Lima já havia deixado a sociedade do Master em maio de 2024. Em agosto de 2025, passou a controlar o Banco Pleno S.A. (antigo Banco Voiter), centralizando ali os negócios de crédito consignado desenvolvidos sob sua liderança.

A trajetória de ascensão de Augusto Lima no setor financeiro tem raízes na Bahia. Em 2018, ele adquiriu a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, em um processo de privatização promovido pelo então governo estadual. O negócio, avaliado em cerca de R$ 15 milhões, incluiu também a assunção de passivos. A partir desse marco, Lima reorganizou a área financeira ligada ao Cesta do Povo e transformou o crediário da rede em Credcesta, um produto de crédito consignado que teve adesão expressiva entre servidores públicos e aposentados. Esse crédito acabou se tornando uma das linhas mais lucrativas do Master após a entrada de Lima na sociedade com Daniel Vorcaro, em 2020. Ainda antes da formalização societária, Lima já atuava na operação do Credcesta dentro do Master.

Em 2024, Lima deixou o Master formalmente e, no ano seguinte, iniciou a aquisição do Banco Voiter (antigo Indusval), que havia sido incorporado ao Master em fevereiro de 2024. A operação permitiu a reestruturação da instituição, que passou a ser gerida por Lima e, em julho de 2025, o Banco Central autorizou a transferência de controle para ele, sob a designação de Banco Pleno S.A. Com essa compra, o empresário retomou o controle do Credcesta, que passou a operar sob a gestão do Banco Pleno. Porém, com o avanço da investigação, Lima foi afastado do comando da instituição.

A compra do Voiter também reacendeu perguntas sobre a atuação do Banco Central (BC). Segundo informações de veículo de imprensa, o BC já havia constatado indícios de irregularidades no Master quando autorizou a transferência de controle do Voiter para Lima. Nessa época, o BC negou a transferência do Lestbank, outra instituição ligada ao Master, para o ex-sócio Maurício Quadrado, alegando falta de comprovação de capacidade financeira e da origem lícita dos recursos. Ainda assim, técnicos do BC teriam considerado a transferência do Voiter para Lima como juridicamente sustentável, apesar de questionamentos internos sobre o risco envolvido. Observou-se, na sequência, medidas para reduzir a exposição da instituição ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC e evitar riscos reputacionais.

No âmbito político, a trajetória de Lima também esteve conectada a nomes de peso na Bahia. A transação envolvendo a Ebal ocorreu durante a gestão do ex-governador Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil, e com a participação do senador Jaques Wagner, à época à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Além disso, fontes apontam que o Credcesta ganhou adesão em programas voltados a servidores estaduais, ampliando a presença do produto no interior baiano a partir de 2019.

O empresário também tem fortes vínculos pessoais com o espectro político. Em janeiro de 2024, Lima casou-se com Flávia Peres, ex-companheira do então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Flávia já ocupou o cargo de deputada federal pelo PL e foi ministra da Secretaria de Governo na gestão de Jair Bolsonaro. Hoje, ela atua à frente da ONG Terra Firme, criada por Lima e voltada a ações de combate à pobreza e às desigualdades. A relação entre Lima e figuras da centro-direita baiana, como ACM Neto, também é mencionada por pessoas próximas, reforçando a atuação política do empresário em diferentes campos.

A operação tramita no Supremo Tribunal Federal, sob sigilo determinado pelo ministro relator Dias Toffoli. A PF não detalhou a identificação dos demais investigados que foram presos na ação, limitando-se a informar a participação de executivos do banco. A defesa de Lima, assim como a dos demais envolvidos, deve se manifestar nas próximas diligências.

O Master foi liquidado na mesma semana em que teve deflagrada a operação. O BRB chegou a anunciar, à época, a intenção de aportar recursos públicos para cobrir parte dos prejuízos decorrentes do caso. A apuração continua para esclarecer as responsabilidades de cada parte envolvida no suposto esquema envolvendo títulos de crédito fraudulentos e a suposta elevação de receitas por meio de operações de crédito consignado, com o Credcesta no centro da controvérsia.

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