Desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2023, o tom do discurso oficial sobre segurança pública, crime organizado e atuação policial passou por mudanças expressivas. Analistas afirmam que a recalibração ocorreu em função de uma leitura estratégica do cenário eleitoral, à luz das pesquisas de opinião que passaram a apontar a insegurança como uma das principais angústias do eleitorado.
Para acompanhar essa evolução, uma avaliação sistemática de falas da Presidência e de ministros vinculados ao PT — com apoio de uma ferramenta de levantamento digital — mapeou discursos do próprio Lula e declarações de membros do governo, além de pesquisas nacionais sobre o tema. O cruzamento de informações aponta um fio condutor: o aumento do medo social precede alterações no tom das falas no Planalto.
O ponto de partida se situa em março de 2023, ainda nos primeiros meses de gestão. Em evento de relançamento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, Lula manifestou críticas à atuação policial nas periferias, sugerindo que, muitas vezes, o Estado aparece apenas com a presença de forças de segurança para ações de confronto. Embora o tema não marcasse ainda a pauta de pesquisas, especialistas já viam sinais de que essa linha de comunicação seria sensível aos humores públicos.
O primeiro indicador estatístico relevante chegou em abril de 2023. Uma sondagem Genial/Quaest, realizada entre 13 e 16 daquele mês, com 2.015 entrevistas presenciais, mostrou que a violência já era a segunda maior preocupação nacional, citada por 22% dos entrevistados, atrás da economia (31%). Nesse período, a popularidade de Lula já registrava queda, com desaprovação em torno de 42%. Para analistas de segurança, esse recall confirmava a relação entre a percepção de insegurança, temor público e ajustes discursivos do governo, ainda que sem alterações estruturais imediatas.
Em julho de 2023, ao assinar o Programa de Ação na Segurança (PAS), Lula voltou a prometer um Brasil de maior tranquilidade. Segundo avaliadores, contudo, os meses seguintes mostraram o oposto: organizações criminosas ampliaram atuação, e o discurso oficial não se traduziu em mudanças visíveis no cotidiano das pessoas.
Em julho de 2024, nova rodada da Quaest, com cerca de 2 mil entrevistas em 120 municípios, indicou que a violência ainda ocupava a segunda posição entre as maiores preocupações (19%), logo atrás da área econômica (21%). Nesse momento, a avaliação sobre o governo permaneceu estável: 54% aprovavam o trabalho de Lula, frente a 43% que o desaprovavam.
A partir de agosto de 2024, o debate ganhou um componente quantitativo contundente sobre impactos diretos da criminalidade. Uma pesquisa Datafolha com 2.508 pessoas revelou que 9,2% sofreram roubo ou furto de celular entre julho de 2023 e junho de 2024 — o equivalente a aproximadamente 14,7 milhões de vítimas. O estudo mostrou que 45% dos casos não foram registrados, explicando parte da discrepância com estimativas oficiais alternativas. O prejuízo estimado foi de cerca de R$ 22,7 bilhões e 53% dos entrevistados disseram evitar circular em determinados locais por medo. Diante da repercussão, Lula, que havia feito críticas à polícia, afirmou posteriormente que o Brasil não seria uma “República de ladrões de celulares”.
Em dezembro de 2024, o governo editou um decreto que regulamentava o uso da força policial, impondo restrições operacionais sob a justificativa de proteção aos direitos humanos. Embora a adesão fosse voluntária para estados, o repasse de recursos federais passou a depender da aplicação da norma. Críticos destacaram que a medida dificultava a ação policial em cenários de alta violência. Em janeiro de 2025, o Planalto divulgou uma nota afirmando que o decreto estava sendo alvo de desinformação e que não retirava dos agentes o direito de usar a força quando necessário.
Em março de 2025, nova rodada da Genial/Quaest indicou que a violência já era a principal preocupação de 29% dos brasileiros, ultrapassando a área econômica. A percepção ganhou ainda mais relevância diante da fala de Lula de que “o Estado é mais forte que os bandidos” e do impulso para a defesa da PEC da Segurança Pública, que enfrentou resistência no Congresso. A proposta, segundo analistas, não avançou devido a tensões entre atribuições estaduais e federais.
Em fevereiro de 2025, o governo lançou o Plano Pena Justa, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF). A meta era reduzir a população carcerária por meio de medidas de desencarceramento. Dados oficiais apontam que o Brasil abriga hoje cerca de 942 mil presos, uma das maiores populações do mundo. Especialistas alertaram que a liberação de detentos reservava riscos ao desempenho do combate ao crime organizado, que se financia, em parte, por delitos de baixo impacto que geram retorno contínuo para facções.
Novas controvérsias surgiram quando Lula afirmou, em outubro de 2024, que “traficantes são vítimas dos usuários”, o que provocou reação negativa e uma nova rodada de pesquisas da Genial/Quaest, divulgada em novembro, com 81% dos entrevistados discordando da declaração e apenas 14% concordando. O presidente tentou amenizar as palavras, reafirmando o compromisso no enfrentamento ao crime organizado, mas sem retratação formal.
A percepção pública não recuou completamente. Pesquisas regionais mostraram apoio significativo a ações de repressão em estados afetados pelo crime. Em outubro de 2025, levantamento do Paraná Pesquisas indicou 45,8% dos brasileiros avaliando que a segurança pública piorou durante o governo Lula. Em estudo específico do Rio de Janeiro, 69,6% aprovaram megaoperações e 67,9% apoiaram novas ações mais duras. Tais números contribuíram para o impulso de propostas legislativas mais rígidas contra organizações criminosas, incluindo a Lei 15.245/2025, acompanhadas de sanção presidencial logo após operações no estado. Parlamentares de oposição estiveram entre os defensores dessas medidas.
Observadores destacam que, em toda essa trajetória, o discurso de Lula oscilou entre críticas à atuação policial, ênfase em políticas de proteção aos direitos humanos e, mais recentemente, posições mais duras. A percepção é de que o governo se ajusta às condições do momento, respondendo a dados de pesquisa e a acontecimentos de segurança. Ainda que haja afirmações de continuidade de políticas, analistas alertam para o risco de que esse giro retórico não se converta em uma estratégia de longo prazo, o que deve pesar em qualquer leitura sobre a possibilidade de reeleição em 2026. A avaliação pública sobre a segurança, com seus altos e baixos, segue como fator decisivo para o debate eleitoral e para o desenho de futuras políticas públicas.



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