Início Política Lula no NYT enfrenta reveses no Mercosul e críticas externas

Lula no NYT enfrenta reveses no Mercosul e críticas externas

Lula no NYT enfrenta reveses no Mercosul e críticas externas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou a sua estratégia internacional, articulando propaganda e um discurso de defesa do direito internacional para tentar recompor a imagem do Brasil no exterior. No entanto, a leitura de inéditas decisões estratégicas indica que esse movimento encontra fortes obstáculos em um cenário regional marcado pela consolidação de governo de direita e por pressões externas.

A aposta mais recente de Lula foi liderar, como atual presidente do Mercosul, a assinatura de um acordo entre o bloco e a União Europeia. O desfecho não correspondeu às expectativas. A premiê italiana Giorgia Meloni adiou por semanas o parecer do seu país sobre o texto, transferindo boa parte da cerimônia formal para o presidente paraguaio, Santiago Peña. Peña celebrou o acordo ao lado de colegas de direita na região, como o argentino Javier Milei e o boliviano Rodrigo Paz; Lula não compareceu ao evento.

Na segunda-feira anterior, Lula reagiu de forma indireta a partir de um artigo de opinião publicado no New York Times. O texto critica ações unilaterais dos Estados Unidos na Venezuela, aponta o enfraquecimento do sistema multilateral e sustenta que chefes de Estado não devem ser punidos por outros por meio da força. A peça, intitulada de modo representativo para o tema, recorre à tradição de soberania brasileira e à defesa de relações pautadas por normas, não pela coerção.

Especialistas veem a manobra como tentativa retórica de ampliar o capital diplomático, ainda que a prática recente tenha gerado críticas. O pesquisador Cezar Roedel, doutor em Filosofia pela PUCRS, afirma que há uma discrepância entre a retórica e a política externa efetiva, apontando uma hipocrisia: o discurso critica ações de Washington sem condenar ações de outras potências quando lhes convém. Roedel também enfatiza que, em termos de consistência, o governo não tem se mostrado igual da mesma forma com todas as grandes potências.

O posa de críticas também é acompanhado por parlamentares. O deputado Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, sustenta que o tom utilizado por Lula revela incoerência. Para Barros, o país está adotando uma diplomacia de alcance reduzido, alinhando-se muitas vezes a regimes autoritários, o que, na visão dele, prejudica o protagonismo brasileiro. Ele acusa o governo de evitar críticas proporcionais a Rússia e a China, mantendo foco contra Washington como estratégia de compensação política.

Com a ascensão de governos de direita na região, analistas ressaltam que a estratégia externa do Planalto tem encontrado resistência adicional. A aproximação de Lula com líderes ideologicamente alinhados, como Gustavo Petro, é interpretada como um sinal de isolamento regional crescente. Alguns observadores destacam que a diplomacia brasileira, outrora respeitada, estaria perdendo espaço em função de escolhas que privilegiam afinidades políticas sobre pragmatismo técnico.

O campo acadêmico aponta que o Brasil poderia ganhar mais com uma postura pragmática e de cooperação. Leila Bijos, doutora em sociologia do desenvolvimento, sustenta que o país deve manter relações técnicas, científicas e econômicas fortes com os Estados Unidos, além de avançar em acordos com a União Europeia para gerar empregos e oportunidades, independentemente de alinhamentos ideológicos. Bijos defende uma abordagem universalista, com foco no crescimento e na cooperação com várias regiões, inclusive África, além de manter negociações com EUA, UE, Rússia e China.

Roedel, por sua vez, ressalta a fragilidade estrutural do país para sustentar qualquer protagonismo. Ele invoca o antigo pensamento de Barão do Rio Branco, lembrando que diplomacia eficaz depende de poder de barganha, o que envolve defesa e capacidades estratégicas. Segundo o analista, o Brasil perdeu influência regional justamente por abandonar investimentos em defesa e segurança. Sem recursos para manter uma presença militar robusta, o país fica externo às lideranças regionais que ocupam esse espaço.

Para quem defende a linha atual do governo, o Itamaraty enxerga o Brasil como mediador indispensável em um mundo cada vez mais multipolar. A leitura oficial sustenta que o Brasil busca uma posição autônoma, Dialogando com o Sul Global, com China, Rússia e potências ocidentais, para construir uma governança internacional mais inclusiva. Roedel, porém, critica esse enquadramento, descrevendo-o como uma visão que não está bem definida sobre qual eixo de influência o Brasil pretende seguir. A ambiguidade, para ele, pode comprometer o apoio interno e externo.

A participação brasileira em fóruns internacionais também vem sendo objeto de leitura de isolamento. A assinatura do acordo com a UE, ainda que importante, coincidiu com a ausência de Lula na cerimônia de assinatura e com a decisão de não participar do Fórum Econômico Mundial de Davos. O governo justificou a ausência com a priorização de compromissos domésticos e de alianças regionais específicas, negando, contudo, um isolamento diplomático.

Em síntese, os analistas apontam que a estratégia de comunicação de Lula não tem, por si só, suficiente lastro prático para reverter um quadro regional de maior protagonismo de lideranças de direita. Enquanto alguns defendem a necessidade de manter o multilateralismo como eixo da política externa, outros destacam a urgência de fortalecer a defesa e a área econômica para projetar uma liderança mais estável do Brasil no cenário internacional. A discussão, ainda em curso, segue centrada na leitura de que o país precisa definir com clareza em que fronteira de influência quer atuar e como transformar esse posicionamento em resultados reais para a economia e a soberania nacional.

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