A Polícia Federal deflagrou, em novembro, a Operação Compliance Zero, para apurar supostas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e o programa de consignados do INSS. Entre os investigados aparece Augusto “Guga” Lima, empresário que já atuou como sócio do ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro. Ambos foram alvo de prisão preventiva, mas foram liberados pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, sob monitoramento eletrônico. O depoimento deles à PF está marcado para ocorrer entre os dias 26 e 28 de janeiro.
Lima ganha destaque por ter papel central na configuração de uma política de crédito consignado que ganhou impulso durante governos do PT na Bahia. O CredCesta — então derivado da antiga Cesta do Povo, criada para alimentar uma rede de supermercados públicos de preços subsidiados — evoluiu ao longo dos anos. Entre 2015 e 2018, sob gestão petista na Bahia, transformou-se em uma plataforma de crédito com desconto em folha para servidores ativos, aposentados e pensionistas. Segundo apurações, Lima operava como elo privado dessa engrenagem, sem ocupação direta na administração estadual.
“Augusto articulou a entrada do CredCesta no negócio, conectando uma ampla rede de mercadorias populares na Bahia”, afirmou, em condição de anonimato, um executivo do setor financeiro. “O modelo atraía, sobretudo, o segmento de servidores públicos, que comprava itens básicos e, às vezes, fazia a revenda dessas mercadorias, entrando também como novo grupo de clientes com recebíveis considerados de boa qualidade”, acrescentou a fonte.
Em 2018, já no governo de Rui Costa (PT), o programa foi formalizado sob a justificativa de cunho social, com a participação do então governador Jacques Wagner, hoje senador e líder do governo no Senado. Ainda naquele ano, Lima firmou um acordo para compartilhar as operações do CredCesta com o Banco Master, abrindo caminho para a integração do modelo ao sistema bancário privado. Dois anos depois, em 2020, ele tornou-se sócio de Vorcaro.
A partir desse marco, o desenho operacional do CredCesta passou a ser repetido pelo Master em escala nacional, com as carteiras de consignados cedidas a fundos de investimento e a outros bancos. Hoje, o CredCesta já está presente em 176 municípios de 24 estados, segundo informações associadas ao processo. A expansão facilita o ingresso de créditos consignados, com a circulação dessas carteiras por estruturas financeiras diversas e por instituições privadas, o que acabou fortalecendo o grupo.
De acordo com relatos obtidos pelas autoridades, grande parte dos créditos teria origem em associações de servidores da Bahia, especialmente a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e a Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia). O problema, conforme as investigações, é que o volume de crédito atribuído a essas entidades não encontrava lastro adequado em termos de estrutura, base de associados, fluxo financeiro ou capacidade operacional. Técnicos analisaram os dados e concluíram que tais associações não possuíam estrutura ou histórico que sustentassem bilhões de reais em consignados no período analisado.
Os números levantados pela PF, pelo Banco Central e pelo Ministério Público Federal apontam que o banco firmou 338,6 mil contratos de crédito consignado com beneficiários do INSS entre outubro de 2021 e setembro de 2025. Desse total, cerca de 252 mil contratos — 74,3% do total — não foram apresentados pela instituição às autoridades. Mesmo assim, esses créditos somaram aproximadamente R$ 6,7 bilhões em contratos de consignados que não puderam ser comprovados. Outros R$ 5,5 bilhões aparecem classificados como valores acessórios ou prêmios financeiros, sem explicação econômica compatível com operações de cessão de crédito. Entre janeiro e maio de 2025, o banco apresentou ao BRB carteiras que, somadas, atingiam cerca de R$ 12,2 bilhões, valor que hoje está no centro das investigações.
Parte relevante dessas carteiras foi estruturada em ativos circulantes que passaram a compor carteiras estruturadas e fundos de investimento, alguns alimentados com recursos ligados ao Estado da Bahia. A participação de fundos e entidades públicas nessas operações é alvo de debate entre reguladores. Embora fundos de pensão, regimes próprios de previdência social (RPPS) e veículos de investimento de estatais possam investir em crédito privado dentro de regras, especialistas destacam que o uso de estruturas intermediárias pode mascarar o risco real do lastro.
Para analistas ouvidos, a cobrança de risco se agrava quando a exposição ocorre por meio de fundos que não têm lastro sólido, como ocorre com parte de operações envolvendo o Master. A ausência de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para estruturas complexas, como FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios), amplia o potencial de perdas caso o lastro seja frágil.
No debate político, há resistência à criação de uma CPI específica para investigar o Banco Master no Congresso. Parlamentares de oposição trabalham com frentes paralelas de apuração, especialmente na CPMI do INSS e na Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado. A dificuldade vem de decisões do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que limitam o acesso dos congressistas a provas já reunidas pela PF. Entre as ações, está a tentativa de convocação de diretores do Master e de familiares de Vorcaro, bem como a participação de integrantes da CPMI na investigação de ligações entre associações e descontos de benefícios previdenciários.
Entre as entidades baianas citadas no caso Master, Asteba e Asseba também aparecem na linha de apuração da CPMI do INSS, que investiga descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários. O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, é apontado como operador do esquema de intermediação junto ao instituto, segundo depoimentos e requerimentos na comissão. As investigações apontam um esquema articulado, que liga fraudes do INSS a operações financeiras de alta escala realizadas com o uso de créditos consignados vinculados a benefícios públicos.
Enquanto as apurações avançam, investigadores e parlamentares observam um padrão de uso de estruturas associativas lastreadas em consignados para sustentar operações financeiras de grande magnitude, com eventual circulação desses créditos por fundos e instituições do sistema financeiro. O desfecho depende da continuidade da atuação da PF, do Ministério Público e do Judiciário, bem como das decisões legislativas sobre como acompanhar, com transparência, o avanço dessas investigações.



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