Lula aposta em propaganda internacional e no uso do direito multilateral para recompor imagem externa, mas cenário atual indica poucas chances de reversão de desgaste político. O Planalto enfrenta derrota de protagonismo em temas-chave da região e pressões de potências externas que condicionam o ritmo de sua agenda diplomática.
Um dos capítulos mais emblemáticos dessa trajetória foi a tentativa de assinar, ainda durante a presidência rotativa do Mercosul, um acordo comercial com a União Europeia. O movimento — visto por aliados como uma cartada estratégica para abrir mercados e ampliar influência — acabou fracassando politicamente. A premiê italiana de direita, Giorgia Meloni, adiantou o atraso da apreciação do acordo em semanas, deixando a caneta nas mãos do mandatário paraguaio, Santiago Peña. Peña comemorou publicamente o acordo ao lado de outros líderes de direita, como o argentino Javier Milei e o boliviano Rodrigo Paz. Lula não compareceu à cerimônia.
Poucos dias depois, o presidente brasileiro sinalizou reação por meio de um instrumento tradicionalmente vinculado à defesa de multilateralismo: um artigo de opinião no New York Times. Na peça, ele critíca ações unilaterais de Washington na Venezuela, aponta para o enfraquecimento do sistema internacional de normas e sustenta que chefes de Estado não devem ser punidos por outros países por meio da força. Em seguida, numa fala oficial na região Sul do Brasil, Lula reforçou críticas direcionadas a Donald Trump, destacando que o atual ocupante da Casa Branca tende a governar o mundo pela rede social X, em tom de alerta sobre a centralidade de discurso e retórica na política externa. As mensagens ganharam timidez prática em meio a uma sequência de escolhas que alimentam a leitura de isolamento.
O artigo do New York Times intitulou-se, em tradução livre, como um lembrete de que o hemisfério pertence a todos, conectando a tradição soberana brasileira de não intervenção a uma visão de relações pautadas por regras. Contudo, para analistas consultados, as palavras divergem da prática administrativa do governo. Um pesquisador de filosofia política ressalta que há seletividade na condenação de certas ações internacionais, criticando o que vê como assimetrias: o governo critica unilateralismo dos EUA sem abordar ações de outras potências que também desrespeitam princípios internacionais. Já para um deputado da oposição, a fala expõe fragilidades de coerência na linha externa e reforça a percepção de uma diplomacia inconsistente.
Especialistas lembram que a configuração regional atual, com ascensão de governos de direita na região, complica o jogo de Lula. A aproximação com lideranças como Milei, Petro e Paz tende a consolidar uma frente que, segundo críticos, estaria deslocando o Brasil de um eixo tradicional de cooperação com os Estados Unidos e o Ocidente. A ausência de Lula na cerimônia da assinatura do acordo e a não participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, ampliam o retrato de distanciamento. Em seu lugar, o chanceler Mauro Vieira acompanhou a agenda oficial.
Para defensores de uma diplomacia mais pragmática, é preciso ampliar a cooperação com várias frentes internacionais, não apenas com base em alinhamentos ideológicos. A pesquisadora Leila Bijos destaca a importância de manter e fortalecer relações técnicas, científicas e econômicas com os Estados Unidos, além de buscar avanços significativos com a União Europeia e com parceiros estratégicamente relevantes, como Rússia, China e países africanos. O objetivo, segundo ela, seria gerar empregos, renda e superação de disputas ideológicas, sob o guarda-chuva de uma política externa universalista.
Outras leituras apontam que a fragilidade estrutural do Brasil dificulta qualquer ambição de protagonismo Mitad do mundo multipolar. O histórico Barão do Rio Branco, citado por defensores do Estado, é lembrado como referência de barganha que depende de capacidade de defesa. O próprio governo reconhece limitações orçamentárias para manter capacidades logísticas e de defesa — um ponto citado por analistas que sugerem que o Brasil ficou sem espaço para liderar ações regionais à altura. Em termos conceituais, o Itamaraty defende uma visão de “Sul Global” como parte de uma estratégia de mediação em um cenário multipolar, não como abandono do Ocidente, mas como desejo de manter uma posição autônoma e articulada com diferentes pólos de poder.
O saldo, dizem especialistas, é de que o Brasil precisa escolher um eixo de atuação mais claro. Enquanto alguns veem na autonomia estratégica uma linha diplomática viável, críticos sugerem que a ambiguidade atual pode comprometer a margem de manobra do Brasil em negociações internacionais e, por consequência, o potencial de liderança regional. Enquanto isso, Lula e o Itamaraty insistem que o país busca, sim, ampliar conversas com parceiros globais, equilibrando interesses nacionais com as realidades de um mundo cada vez mais complexo e disputado.



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