Início Política Gaza: Lula sob Trump, entre cooperação e custo político

Gaza: Lula sob Trump, entre cooperação e custo político

Gaza: Lula sob Trump, entre cooperação e custo político

Título: Lula encara dilema estratégico em convite de Trump para Conselho de Paz em Gaza

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convidou Luiz Inácio Lula da Silva para integrar um novo “Conselho de Paz” dedicado à Faixa de Gaza, gesto que coloca o governo brasileiro sob intensa pressão diplomática. Em meio a controvérsias sobre o formato e a representatividade de um espaço que pretende discutir governança, reconstrução e financiamento do território, Lula avalia a proposta sem tomar decisão final até o momento.

O pedido chega em meio a um cenário de acirradas tensões internacionais. Lula, que desde o início de seu terceiro mandato busca ampliar a atuação do Brasil como mediador em conflitos relevantes, já adota uma postura crítica às operações militares em Gaza e defende a criação de um Estado palestino. Em 2024, o governo israelense chegou a considerar Lula persona non grata após o então presidente comparar ações em Gaza a episódios da Segunda Guerra Mundial. O episódio evidencia a delicateza com que o petista conduz a relação entre Brasil e grandes potências, especialmente em temas sensíveis do Oriente Médio.

Para o cientista político Marcelo Suano, da USP, o convite de Trump funciona como uma armadilha diplomática cuidadosamente articulada. Ele afirma que o gesto coloca Lula diante de uma escolha difícil: aceitar ingressar em um espaço que pode não ter real autonomia ou recusar e, com isso, sinalizar desalinhamento público com Washington. “Trump convida alguém para um espaço de decisão, ainda que quase certamente sem controle efetivo do convidado”, afirma. O professor também destaca que a aceitação poderia dialogar com tradições de Lula de buscar negociações diretas para superar divergências, ainda que traría desgaste interno e riscos de humilhação internacional, caso o Brasil tenha pouca influência prática.

Na segunda-feira (19), Lula se reuniu com o chanceler Mauro Vieira no Palácio do Planalto para debater o conteúdo do documento enviado pela Casa Branca e mapear possíveis impactos da adesão ao chamado “Conselho de Paz” para Gaza. Segundo assessores, o governo ainda não tomou decisão e pediu uma avaliação criteriosa da proposta. Entre os pontos em exame estão os objetivos explícitos do conselho, a composição de países e lideranças que aceitariam participar, a posição dos atores quanto à guerra em Gaza e os custos, inclusive financeiros e políticos, envolvidos.

Outro tema em análise é o real poder do grupo proposto. Em meio às discussões, o governo avalia se haverá influência efetiva dos membros ou se o colegiado funcionará apenas como uma chancela de decisões já tomadas por Washington. A dúvida sobre a margem de autonomia do gabinete de Lula aparece entre diplomatas e especialistas.

Na terça-feira (20), Lula voltou a atacar Trump durante um evento no Rio Grande do Sul, dizendo que o presidente norte-americano quer “governar o mundo pelo Twitter”. No mesmo dia, em Washington, Trump confirmou o convite a Lula, dizendo que o brasileiro tem “um papel importante” a desempenhar no grupo.

O formato do Conselho de Paz é alvo de críticas entre especialistas em relações internacionais. Um rascunho do estatuto divulgado por veículos norte-americanos sugere a ideia de abandonar instituições que, na visão dos organizadores, falharam com frequência — em referência indireta à ONU. Além disso, a ausência de representantes palestinos e o predominante protagonismo dos EUA geram resistência entre diplomatas de várias capitais, inclusive do Brasil.

Para a professora Barbara Neves, da Universidade Positivo, a proposta representa um desvio do sistema multilateral. Ela sustenta que a iniciativa ignora os palestinos, reúne atores inclinados a intervenções militares e pode fragilizar a credibilidade de organizações internacionais. O professor Conrado Baggio, da Universidade Cruzeiro do Sul, também vê o dilema como real: aceitar poderia reduzir a relevância da ONU; recusar, por sua vez, pode provocar atritos com os EUA e afastar o Brasil de uma vitrine de alto visibilidade internacional.

Já o enfoque pragmático de Marcelo Suano aponta que a crise mostraria os limites estruturais da ONU diante de conflitos sensíveis. “Se a ONU decide, gera crise; se não decide, também. Os EUA oferecem uma alternativa”, resume. Ainda assim, ele reconhece que a iniciativa pressiona diretamente países que defendem o multilateralismo, como o Brasil, levantando a questão de quem dita as regras quando a ONU não consegue chegar a uma solução.

A avaliação entre assessores do Planalto é que a participação poderia ser interpretada como endosso a uma governança informal liderada por Washington, mas a recusa também carrega riscos: sinalizar desalinhamento estratégico ou manter o Brasil afastado de um movimento de visibilidade significativa. Além disso, o impulso político pode influenciar o tom da conversa interna entre esquerda, academia e movimentos sociais que acompanham a política externa brasileira.

Por ora, o calendário eleitoral também entra no cálculo de Lula. Em meio às contingências políticas internas, a decisão tende a pesar menos por cálculos longos de política externa e mais por como a legenda poderá apresentar a escolha ao eleitorado. A linha que o presidente preferirá seguir permanece em aberto: manter o Brasil fiel ao multilateralismo e à ONU, ou abraçar um formato de governança que, para críticos, subordina a diplomacia brasileira aos interesses de Washington em uma região de alta complexidade.

Deixe uma Resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.