Início Política Lula inicia 2026 em tom de campanha e amplia uso do aparato estatal

Lula inicia 2026 em tom de campanha e amplia uso do aparato estatal

Lula inicia 2026 em tom de campanha e amplia uso do aparato estatal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou 2026, último ano de seu terceiro mandato, em meio a uma agenda fortemente ligada a planos de reeleição. Em meio a desafios fiscais e ao relacionamento com o Congresso, ele tem usado a máquina pública como principal ferramenta de mobilização política, tomando decisões que priorizam o terreno eleitoral e ampliam o alcance de sua base de apoio.

Analistas costumam observar que a estratégia de Lula não é um lançamento explícito de campanha, mas um conjunto de ações administrativas sincronizadas com o objetivo de manter protagonismo. O Orçamento da União aparece como eixo central dessa movimentação, especialmente pelo peso político das emendas parlamentares. Em 2025, o governo desembolsou um volume recorde de 31,5 bilhões de reais em emendas, e a tendência é chegar a patamares ainda maiores neste ano, no que o governo reconhece como custo político de manter uma base congressual à altura do esforço pré-eleitoral.

Entre as medidas de maior impacto social previstas para manter o desgaste sob controle, destacam-se reforços aos programas de transferência de renda, com reforço ao Bolsa Família, a estreia do Programa Acredito e a ampliação de políticas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais mensais e o projeto denominado Gás do Povo. O objetivo é ampliar o alcance de políticas de proteção social em setores populacionais amplos, na tentativa de compensar eventual piora de avaliações causadas por fatores econômicos.

No campo econômico, o governo sinaliza uma solução híbrida: manter políticas de alcance social enquanto busca alternativas para manter o equilíbrio fiscal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estaria em processo de afastamento temporário do cargo para ampliar a visibilidade de programas, com o secretário-executivo, Dário Durigan, assumindo a gestão da pasta de modo mais alinhado ao mercado. A premissa é explorar eventual queda da taxa básica de juros (Selic) ao longo do ano, sem abandonar o cuidado com as contas públicas.

Há, ainda, a expectativa de reduzir a intensidade das viagens internacionais para dedicar mais tempo à articulação da campanha. Confirmadas até o momento estão três viagens ao exterior: Índia e Coreia do Sul, em fevereiro, e Alemanha, em abril. Possíveis visitas aos Estados Unidos e ao Panamá, além de participação em fóruns multilaterais, estão em avaliação. Paralelamente, o Planalto estruturou, entre janeiro e julho, um roteiro intenso de viagens e inaugurações no território nacional, com foco estratégico em Sudeste e Nordeste, regiões que concentram parte significativa do eleitorado, para ampliar a visibilidade de obras, investimentos e políticas públicas.

Em dezembro de 2025, o PT lançou um manifesto que apresentou uma ofensiva democrática, prevista para orientar a estratégia de mobilização da base ao longo de 2026. O texto ressaltou a necessidade de articularem-se alianças políticas para enfrentar o que o partido chamou de ameaça de “extrema-direita” e “obscurantismo”, apontando para um alinhamento programático e ações previstas ao longo do ano seguinte.

Porém, o cenário fiscal continua restritivo. O orçamento aprovado para 2026 soma 6,5 trilhões de reais, com uma margem menor para gastos discricionários ao considerar o peso das despesas obrigatórias e do serviço da dívida pública. Se não houver refinanciamento da dívida, o espaço de manobra cai para cerca de 4,7 trilhões, com a parcela discricionária pressionada pela ampliação automática de gastos com previdência e assistência social. O resultado é uma gestão orçamentária mais engessada, dependente de negociações com o Congresso e de reorientações de gastos já contratados para sustentar ações com apelo eleitoral.

As contas públicas do ano anterior reforçam o desafio. Dados oficiais indicam déficit de 83,8 bilhões de reais até novembro de 2025, com um rombo de 20,2 bilhões apenas nesse mês. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, aponta que o arcabouço fiscal perdeu credibilidade, à medida que o governo tem recorrido a várias exceções às regras fiscais para contornar a rigidez orçamentária. Entre 2023 e 2025, mais de 170 bilhões de reais em despesas foram excluídos do teto de gastos ou do cálculo do resultado primário, incluindo gastos com desvios do INSS e com o rombo dos Correios. Esse cenário alimenta incertezas sobre a sustentabilidade da trajetória fiscal a médio prazo.

Para o cientista político Ismael Almeida, a máquina governamental pode, de fato, influenciar a percepção do eleitor em favor de Lula, mas o efeito tende a depender das condições econômicas reais vividas pela população. Ele ressalta que o acréscimo de benefícios pode ser contrabalançado pela inflação, que corrói o poder de compra dos mais pobres. O aumento recente do preço do botijão de gás, resultado de mudanças no ICMS, é citado como exemplo de como custos de vida elevados podem neutralizar ganhos proporcionados por políticas públicas.

A soma de ações alinhadas ao calendário eleitoral, combinadas a um cenário fiscal desafiador, coloca Lula diante de um ano de campanha explícita sob o manto de decisões de Estado. O governo sustenta que, mesmo com restrições orçamentárias, é possível manter entregas e políticas de amplo alcance, buscando consolidar sua posição no cenário político em 2026.

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