Nova etapa mira círculo do réu; exige cooperação.

Nova etapa mira círculo do réu; exige cooperação.

A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na última quarta-feira, dia 14, aprofundou as investigações sobre fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, mas manteve o foco centrado no círculo próximo ao empresário Daniel Vorcaro. O alvo não avançou para além do entorno empresarial e familiar do banqueiro, mesmo diante de questionamentos sobre possíveis ligações de autoridades públicas e conflitos de interesse no âmbito do STF. Ao todo, a operação autorizou 42 mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de aproximadamente 5,7 bilhões de reais em bens.

Analistas, juristas e fontes ouvidas pela reportagem apontam que a escolha de restringir as diligências ao núcleo mais próximo de Vorcaro reforça a percepção de seletividade. Enquanto autoridades de peso e membros do Judiciário aparecem de forma mais indireta, a meação de perguntas sobre eventual delação premiada cresce entre advogados e especialistas, mesmo com Vorcaro contestando qualquer intenção nesse sentido.

Entre os pontos de tensão lançados pela segunda fase está a atuação do ministro Dias Toffoli. Relatos indicam participação dele em eventos ligados à instituição, viagens em aeronaves de uso privado associadas a advogados do banco e negócios de parentes com o Master. Toffoli sustenta que não há relacionamento pessoal ou interesse no desfecho das apurações e que suas decisões seguem critérios técnicos e jurídicos. Mesmo assim, analistas ressaltam que a soma de contatos institucionais, decisões de sigilo e a centralização do caso no STF alimentam dúvidas sobre potenciais conflitos de interesse, ainda mais quando somadas às informações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.

A relação entre Moraes e o caso também é objeto de escrutínio. A esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, teve um contrato de prestação de serviços com o Banco Master, situação que aumenta as perguntas sobre eventuais interferências no andamento das apurações. Esses questionamentos ganham reforço a partir do caminho processual seguido: o caso chegou ao STF após menção a um deputado federal da Bahia com prerrogativa de foro, o que, para muitos, pode ter servido como porta de entrada para deslocar a investigação à Corte e blindar o núcleo decisório mais sensível.

Para juristas, a escolha de concentrar buscas no entorno de Vorcaro, sem incluir autoridades com foro privilegiado entre os alvos diretos, alimenta interpretações de que o foro privilegiado houve mais como construção narrativa do que exigência jurídica concreta. Em termos práticos, a ausência de mandados contra parlamentares, magistrados ou integrantes do alto escalão do Executivo reforça essa leitura.

O foco exclusivo sobre o círculo próximo de Vorcaro também é visto como estímulo à pressão por delação. O jurista André Marsiglia observa que a estratégia pode favorecer acordos de colaboração, não apenas de Vorcaro, mas de pessoas ligadas ao empresariado e aos laços familiares alvos da operação. O constitucionalista Alessandro Chiarottino aponta que esse desenho pode ter efeitos jurídicos e políticos relevantes, aumentando o desgaste público e acelerando o andamento do caso. Já o especialista Luiz Augusto Módolo é mais cauteloso, sugerindo que o cenário pode indicar uma aposta de resistência por parte de Vorcaro, que conta com uma das defesas mais caras do país, o que sugere uma trajetória de confronto prolongado.

Do ponto de vista processual, a centralização da investigação no STF é vista com ressalvas. Advogados e estudiosos destacam que a Polícia Federal e o Ministério Público são os órgãos responsáveis pela condução normal das diligências, ainda que o STF tenha competência para controle de legalidade quando há foro privilegiado. A percepção de filtros rigorosos ou de seleção estreita de alvos pode comprometer a credibilidade da apuração e a robustez das provas produzidas, segundo especialistas.

Vorcaro, que já chegou a ser preso preventivamente em novembro, permanece em prisão domiciliar desde o fim daquele mês. Em depoimento à Polícia Federal em 30 de dezembro, ele descartou, por ora, a possibilidade de cooperação. Avaliações de advogados consultados mencionam que a pressão resultante sobre o núcleo próximo pode aumentar a probabilidade de delações, seja de Vorcaro ou de outras pessoas ligadas aos alvos da investigação.

O debate sobre o papel do Judiciário na fase investigativa permanece aceso. Embora o STF tenha competência para avaliar a legalidade dos atos, a condução externa da apuração pelo inquérito, com a PF e o Ministério Público, continua sendo defendida por juristas que ressaltam a importância de não comprometer a confiança pública na imparcialidade das decisões futuras.

Enquanto o caso Master avança, a tensão entre transparência, sigilo e a tentativa de dissociar o processo de influências externas permanece como um teste crítico para as instituições brasileiras. A pergunta central continua: quem, de fato, está no centro das apurações e até onde vão as ramificações que cercam a maior crise financeira recente envolvendo o Banco Master?

Deixe uma Resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.